Flowers in Chania

Há 30 anos, dois canais de televisão da cidade de Chicago tiveram os sinais sequestrados e seus espectadores presenciaram um evento bizarro.

Enquanto a normalidade da transmissão não era reestabelecida, quem assistia aos canais WGN e WTTW foi surpreendido pela invasão de um sujeito trajando uma máscara. Em um dos canais, a transmissão ficou no ar durante pouco mais de 20 segundos. Já no outro, ela alcançou 90 segundos e foi um minuto e meio de um máscarado falando uma série de coisas aparentemente sem sentido.

Max Headroom

A máscara usada pelo hacker que aparecia diante das câmeras era de Max Headroom, uma “inteligência artificial fictícia” britânica criada em 1984 por George Stone, Annabel Jankel e Rocky Morton e interpretada por Matt Frewer. O personagem debutou no filme “Max Headroom: 20 Minutes into The Future”, em 1985, e depois ganhou o programa de música The Max Headroom Show, tornando-se “o primeiro apresentador de TV gerado por computador do mundo”.

Ele teve ainda outros programas, dentro os quais a série dramática chamada “Max Headroom”, transmitida no Brasil pelo extinto canal Manchete.

Headroom tinha um ar meio sinistro e as suas falas eram entrecortadas por repetições, tudo isso diante de um fundo repleto de linhas se movimentando, um cenário daqueles primeiros saltos tecnológicos do audiovisual nos anos 80. O resultado final era o de um programa bizarro e divertido que naturalmente se assemelhava a uma transmissão hacker de um futuro distópico.

Max Headroom experimentou um sucesso considerável durante os anos 80, chegando inclusive a protagonizar propagandas da Coca-Cola. E talvez todo esse contexto cyberpunk, transgressor e tecnológico tenha sido decisivo para a escolha de Max Headroom para ser a cara dos sequestradores do sinal das redes de TV de Chicago.

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Primeira aparição

A primeira invasão dos hackers no dia 22 de novembro de 1987 aconteceu por volta das 21h30, durante a exibição do jornal The Nine O’Clock News, da WGN. Enquanto o noticiário exibia uma matéria sobre a vitória do time de futebol americano Chicago Bears, a tela escureceu e ficou muda por alguns segundos, até que alguém emergiu equipado com a máscara de Max Headroom.

O sinal estava ruim e as imagens se pareciam com as de uma fita cassete sem ajuste de tracking. Um ruído sonoro tornou impossível escutar qualquer coisa que o hacker pudesse ter dito e ele apenas se balançou diante de um fundo que possivelmente se tratava de uma porta de loja girando digitalmente.

A transmissão pirata foi rápida e durou pouco mais de 20 segundos, quando a emissora de televisão retomou o controle. O âncora Dan Roan se mostrou surpreso, sem ideia do que acabava de acontecer. “Se você está imaginando o que acabou de acontecer, eu também estou.”

Duas em sequência

A segunda aparição de Max Headroom aconteceu duas horas mais tarde e foi ainda mais bizarra. O canal WTTW exibia um episódio da série “Dr. Who” quando a invasão tomou a tela. Apesar do áudio estático, é possível compreender basicamente tudo o que hacker mascarado fala, e ele solta diversas frases aparentemente desconexas.

A exibição começa com o protagonista afirmando “ser melhor” do que Chuck Swirsky, um comentarista esportivo da WGN a quem ele define como “um maldito liberal”. Max segura uma lata de Pepsi para satirizar o fato de que o personagem era garoto-propaganda da Coca- Cola e até fala o slogan do refrigerante à época: catch the wave (“siga a onda”, em tradução livre).

Max balbucia o tema de abertura da série “Clutch Cargo”, mostra o dedo e depois veste uma luva que se assemelha à clássica luva utilizada por Michael Jackson. “Meu irmão está usando a outra”, disse o hacker, “ela está suja, é como se estivesse manchada de sangue”, prossegue, logo antes de retirar o acessório. Na sequência, ele tira a máscara com o rosto fora de quadro e, então, uma mulher vestida de empregada aparece (também sem mostrar o rosto) e começa a bater com um mata-mosquitos na bunda desnuda de Headroom.

Enquanto “apanha”, Max grita “eles estão vindo me pegar” e a transmissão é encerrada logo em seguida. No instante seguinte, a WTTW volta a transmitir o episódio de “Dr. Who”.

Na (inútil) busca dos hackers

À época, os engenheiros dos canais afirmaram se tratar de algum “brincalhão” munido de algum equipamento bastante caro, a única maneira possível de se infiltrar em transmissões dessa forma. As emissoras vasculharam seus estúdios em busca de algum possível envolvido no acontecimento, mas nada foi encontrado.

O assuntou tomou a imprensa e as discussões nos EUA. O próximo passo foi levar a questão às autoridades. “Nós consideramos isso um assunto sério”, declarou em entrevista na época Maureen Peratino, o diretor de relações públicas da FCC, órgão regulamentador das telecomunicações nos EUA.

O evento devolveu às empresas de TV a preocupação com esse tipo de ação. Isso porque menos de dois anos antes a HBO foi vítima de invasão semelhante, mas um equívoco do hacker na hora de selecionar os aparelhos usados na interceptação da transmissão fez com que ele fosse facilmente identificado e capturado pela polícia. Depois disso, uma lei específica estabelecia multa de US$ 10 mil e até um ano de prisão como punição para hackers de TV.

Apesar dos esforços do FBI e da FCC para tentar descobrir quem estava por trás da máscara naquela noite há 30 anos, ninguém jamais foi identificado. Os responsáveis pelo chamado Incidente Max Headroom permanecem incógnitos até agora e a autoria dos “ataques” nunca foi assumido. Nessa altura, é pouco provável que esse mistério seja solucionado algum dia.

Fonte: Tecmundo

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